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17 de janeiro de 2010

"Salvem os Nossos Pássaros" (Margaret Atwood)

[excerto de artigo]

(…) Eis algumas estatísticas: Nos Estados Unidos, as linhas eléctricas matam entre 130 e 174 milhões de pássaros por ano — muitos deles aves de rapina como falcões, ou aves aquáticas cuja envergadura de asas pode tocar em dois cabos quentes ao mesmo tempo, resultando em electrocução, ou que se chocam contra as linhas elécricas finas sem as ver (pense-se em cordas de piano). Automóveis e camiões colidem com pássaros e matam entre 60 a 80 milhões anualmente nos Estados Unidos, e os edifícios altos — em especial aqueles que deixam as luzes ligadas à noite — são um perigo muito grande para os pássaros migratórios, levando a cerca de entre cem e mil milhões de mortes de pássaros anualmente. Acrescentem-se as torres de comunicação iluminadas, que matam também um grande número de morcegos, cada uma podendo ser responsável por tantas quantas 30.000 mortes de pássaros numa noite má — temos pois 40 a 50 milhões de mortes por ano, e destinadas a duplicar à medida que são construídas mais torres. Os pesticidas agrícolas matam directamente 67 milhões de pássaros por ano, com muito mais mortes resultando de toxinas acumuladas que convergem no topo da cadeia alimentar, e da fome, à medida que desaparece o alimento normal dos insectívoros. Os gatos dão cabo de cerca de 39 milhões de pássaros apenas no estado de Wisconsin; multiplique-se isso pelo número de estados da América, e façam-se então os cálculos para o resto do mundo: os números são astronómicos. Há então os efluentes das fábricas, os derramamentos de petróleo no mar e nas praias, os compostos químicos desconhecidos que estamos a deitar na mistura. A natureza é prolífica, mas não está a conseguir acompanhar tais níveis de mortandade, e as espécies de aves — até mesmo espécies outrora comuns — estão a cair a pique em todo o mundo.

Mais uma estatística: segundo Al Gore, 97% dos donativos beneficentes vão para causas humanas. Dos restantes 3%, metade vão para animais de estimação. Isto deixa 1½% dedicado ao resto da natureza — incluindo os oceanos assoberbados de crises, a terra sofrendo de erosão, seca ou inundações, e a  biosfera em retracção da qual dependem as nossas vidas. Quão loucos somos? Parecemo-nos muito com aqueles desenhos animados antigos nos quais a personagem tolinha está a cortar o mesmo ramo da árvore no qual se senta, enquanto por baixo dela está uma queda a pique sem fundo. Faz-nos querer enfiar a cabeça na areia, tal como — aparentemente — faz toda a gente, e limitarmo-nos a comer muito, ver filmes antigos do tempo antes de as coisas se terem tornado tão assustadoras, e ir às compras. Ou, como James Lovelock continua a avisar-nos: aproveitem a coisa enquanto puderem, o que quer que seja "a coisa", pois ela não irá durar muito mais tempo. (…)

— Margaret Atwood, in "Act now to save our birds", publicado em The Guardian

13 de janeiro de 2010

"Esqueçam a Sustentabilidade, É Altura de Falar de Resiliência"

[post]

Um novo conceito está a infiltrar a conversa sobre as alterações climáticas, e tem o potencial de mudar por completo essa conversa. É altura de deixar descansar a sustentabilidade e de começar a falar em resiliência, escreve Rob Hopkins em Resurgence:

O temo "resiliência" está a parecer com frequência cada vez maior em debates sobre preocupações ambientais, e tem boas pretensões a ser de facto um conceito mais bem sucedido do que o de sustentabilidade. Acredita-se em geral que a sustentabilidade e o oxímoro que é a sua prole, o desenvolvimento sustentável, são uma resposta adequada à escala do desafio climático que enfrentamos: reduzir os
inputs numa das extremidades do modelo de crescimento económico globalizado (energia, matérias-primas e por aí fora), enquanto se reduzem os outputs na outra extremidade (poluição, emissões de carbono, etc.). Porém, as respostas às alterações climáticas que não abordam o iminente, ou possivelmente já passado, pico na produção mundial de petróleo, não abordam adequadamente a natureza do desafio que enfrentamos.

O conceito de resiliência leva em conta o modo como os sistemas podem sobreviver intactos às perturbações, e Hopkins diz que esse enquadramento é crucial para as hipóteses de as comunidades sobreviverem "para além do actual turbilhão económico a que o mundo está a assistir". Um supermercado é um bom exemplo de como explicar esta nova forma de pensar, diz Hopkins:

Poderá ser possível aumentar a sua sustentabilidade e reduzir as suas emissões de carbono usando menos embalagens, colocando fotovoltaicas no telhado e instalando frigoríficos mais eficientes em termos energéticos. Porém, pensar em termos de resiliência argumentaria que o encerramento de mercearias e de redes retalhistas locais que resultou da abertura do supermercado, bem como o facto de a própria loja só conter a cada momento alimentos para dois dias — a maioria dos quais foi transportado através de grandes distâncias para lá chegar —, reduziu maciçamente a resiliência da segurança alimentar da comunidade, ao mesmo tempo que aumenta a sua vulnerabilidade ao petróleo.

— Elizabeth Ryan, in "Forget Sustainability, It's Time to Talk Resilience", publicado em Utne Reader

12 de janeiro de 2010

"A Mente na Floresta"

[excerto de artigo]

(…) Aqueles que imaginam que os seres humanos são superiores ao resto da natureza usam muitas vezes "abraça-árvores" [tree-hugger] enquanto expressão ridicularizadora, como se sentir o encanto das árvores fosse alguma forma pervertida de sensualidade ou um remeter à nossa ancestralidade símia. Evidentemente, muitos dos que lamentam o abraçar de árvores não acreditam que temos uma ancestralidade símia; receiam pois, talvez, uma reversão ao paganismo. E podem ter um argumento válido. As religiões que começaram no Médio Oriente — o Judaísmo, o Cristianiosmo, o Islão — são todas fés do deserto, criadas por pessoas que viviam ao ar livre. O seu é um deus do céu, que seria eclipsado pela cobertura de uma floresta. Em todas as civilizações influenciadas por estas fés, abateram-se árvores não apenas com o intuito de garantir lenha para cozinhar ou construir, ou de limpar o solo para a agricultura, ou de abrir campos de visão em redor de aldeamentos onde predadores poderiam emboscar-se, mas sim para revelar os céus.

A adoração de um deus celeste sempre foi dispendiosa para o nosso planeta. As religiões que opõem o celestial ao terreno, elevando o primeiro e desprezando o segundo, estão de facto a negar que emergimos da natureza e dependemos inteiramente dela. Se pensarmos que o mundo material — tocável, comestível, escalável, sexy e cantador — é decaído, corrupto e pecaminoso, então provavelmente abusaremos dele. Provavelmente diremos que podemos muito bem abater as últimas florestas primordiais, secar os últimos pântanos, pescar os últimos atuns e bacalhaus, queimar as últimas gotas de petróleo, já que vem aí o final dos tempos, quando os poucos eleitos serão extaticamente transportados para o domínio imortal, e tudo quanto há de terreno será completamente apagado.

Mas a nossa linguagem preserva uma sabedoria contrabalançadora. Em latim, materia significa coisas, tudo quanto seja substancial, e em particular significa lenha. Materia deriva por sua vez de mater, que significa mãe. Na imaginação colectiva que deu origem a esses significados, entendia-se que as árvores eram o epítome da matéria, e entendia-se que a matéria dava vida. Talvez possamos ligar-nos a esta sabedoria recuperando outra palavra que deriva de mater — matrix, que significa útero. Em vez de falarmos sobre a "natureza" ou "o ambiente", talvez devêssemos falar da Terra como a nossa matriz, a nossa mãe, a fonte e o sustento da vida (…)

— Scott Russell Sanders, in "Mind in the Forest", publicado em Orion Magazine

11 de janeiro de 2010

"Debaixo da Floresta"

[excerto de post]

A devastação gradual da Amazónia — o derrube de milhares de quilómetros quadrados de floresta, a eliminação da selva — produziu, paradoxalmente, uma das maiores descobertas arqueológicas: uma vasta e complexa civilização antiga. Em áreas desmatadas da bacia superior do Amazonas, os investigadores assinalaram recentemente, usando imagens de satélite, uma enorme rede de terraplanagens, incluindo estradas e estruturas alinhadas geometricamente, construídas por uma civilização até agora desconhecida. Segundo um novo relatório publicado na revista Antiquity, o arqueólogo Martii Pärssinen e outros cientistas documentaram mais de duzentas e dez estruturas geométricas, algumas das quais poderão datar de há tanto tempo quanto o terceiro século da nossa era. Espalham-se por uma área que abarca mais de duzentos e cinquenta quilómetros, indo desde o norte da Bolívia até ao estado do Amazonas no Brasil.

Tal como escrevi anteriormente em The New Yorker e no meu livro “The Lost City of Z,” durante séculos a maioria das pessoas assumiu que a Amazónia era uma floresta primordial, um lugar onde não havia, como Thomas Hobbes descreveu o estado da Natureza, “nenhumas Artes; nenhumas Letras; nenhuma Sociedade; e o que é o pior de tudo, medo contínuo, e perigo de morte violenta". Embora os antigos conquistadores tivessem ouvido os índios falar de uma civilização amazónica fabulosamente rica, a que chamaram El Dorado, as buscas que dela se fizeram acabaram invariavelmente em desastre. Milhares de pessoas foram aniquiladas pela doença e pela fome. E após um balanço de morte e sofrimento digno de Joseph Conrad, a maioria dos estudiosos concluiu que o El Dorado não passava de uma ilusão. De facto, os cientistas acreditavam que as condições implacáveis na selva eram simplesmente inóspitas demais para sustentar uma grande população, que é um precursor de qualquer sociedade grande e complexa. Ficou famosa a classificação da região como um "paraíso falsificado", feita por Betty Meggers, o nome mais influente da arqueologia do século XX.

Nas primeiras décadas do século XX, o explorador britânico Percy Harrison Fawcett desafiou esta ideia prevalecente. Ao explorar e cartografar em grande medida a mesma área onde as ruínas foram recentemente descobertas, informou ter encontrado grandes montes de terra repletos de cerâmica antiga e estaladiça. Enterrados sob o solo da selva, afirmou, havia também vestígios de canais e estradas. Baseado nestes e noutros indícios, insistiu que a Amazónia contivera outrora grandes populações, e pelo menos uma, se não mais, civilizações avançadas. Apesar de ser desconsiderado e ridicularizado como tolinho, em 1925 Fawcett partiu em busca do lugar, que baptizou "Cidade de Z". Ele e a sua expedição, incluindo Jack, o seu filho de vinte e um anos, desapareceram então para sempre — um destino que pareceu confirmar a loucura de uma tal demanda.

No decurso dos últimos anos, porém, tem surgido evidência crescente de que quase tudo que outrora se acreditava em geral sobre a Amazónia e o seu povo estava errado, e que Fawcett foi de facto presciente. (…)

— David Grann, in "Under vthe Jungle", publicado em The New Yorker

"Uma Obsessão Natural"

[excerto de artigo]

(…) o que pode ter começado com uma revolta contra a comida artificial ou, para muitos, contra os horrores da criação concentrada de animais, deu lugar a uma cultura que fetichiza os alimentos orgânicos, naturais e integrais, com pouca concordância sobre o que esses termos significam de facto, à excepção de uma devoção enfática àquilo que esses alimentos não são. Eles não estão de modo algum relacionados com explorações agrícolas em escala industrial ou com redes retalhistas de bens alimentares, com herbicidas ou pesticidas químicos, com biotecnologia ou com o seu subgénero, a engenharia genética. E, segundo estes critérios, considera-se que estes alimentos são mais seguros, mais nutritivos e menos lesivos para o ambiente.

Porém, uma escrutinização mais cuidadosa destas suposições pouco revela que as confirme. Como Michael Specter assinala no livro que se apresta a lançar, Denialism, o mercúrio, o chumbo e o amianto também são "naturais", assim como o são a E. coli e a salmonela. Em 2009, um surto de salmonela matou nove pessoas, fez adoecer centenas e desencadeou a maior retirada de produtos alimentares da história dos EUA. Entretanto, os produtos geneticamente modificados, apesar de estarem no mercado há mais de 13 anos, não fizeram adoecer ninguém, diz Specter.

Nutricionalmente, não há indícios claros de que os alimentos orgânicos sejam melhores do que os convencionais. Num estudo recente, investigadores financiados pelo Centro Internacional para a Investigação de Sistemas Alimentares Orgânicos, na Dinamarca, compararam couves, ervilhas, batatas e maçãs cultivadas organicamente com outras cultivadas segundo as prescrições convencionais. Durante dois anos, alimentaram também ratinhos tanto com alimentos orgânicos como com convencionais. "No seu conjunto, não havia nenhuma tendência evidente apontando para diferenças nos elementos contidos nos alimentos ou nas dietas devido ao uso de sistemas diferentes de cultivo," concluíram no Journal of the Science of Food and Agriculture. Nem os vegetais orgânicos nem os ratos alimentados com eles revelaram ser algo mais do que vulgares.

Quanto a estimar a pegada ecológica, o número de estudos contraditórios é estonteante, mas a agricultura orgânica tende a ganhar uma ligeira vantagem em relação a práticas convencionais quimicamente intensivas, sobretudo por usar menos pesticidas e fertilizantes baseados no petróleo. Por exemplo, o ecologista David Pimentel, da Universidade de Cornell, mostrou que colheitas de soja cultivada organicamente produziam o mesmo rendimento mas usavam 30 por cento menos energia do que as suas contrapartes cultivadas de forma convencional. Cientistas suíços descobriram que os inputs energéticos cumulativos aplicados à agricultura orgânica são cerca de metade dos da agricultura convencional e usam 97 por centro menos pesticidas — embora as colheitas sejam também dramaticamente menores.

Levem-se porém em conta os custos de transporte dos alimentos — "as milhas alimentares" —, e essas eco-margens desaparecem rapidamente. Em 2005, investigadores britânicos estimaram que as "poupanças ambientais" do abastecimento local de alimentos excediam as de toda a agricultura orgânica em aproximadamente 2:1. Isto é, uma maçã cultivada organicamente no Estado de Washington e transportada por estrada para um mercado de agricultores quase de certeza lança mais carbono para a atmosfera do que uma maçã cultivada convencionalmente no local e comprada num grande retalhista. (…)

— Maywa Montenegro, in "A Natural Obsession", publicado em SEEDMAGAZINE

"GPS em Ajuda de Tribos Amazónicas"

[excerto de artigo]

Wuta está praticamente nu, excepto pela faixa de algodão vermelho amarrada à volta da cintura e pelos colares de contas amarelas que enfeitam o seu torso musculado. Nas suas mãos, porém, segura algo que o situa firmemente do século XXI: um dispositivo GPS.

Membro da tribo Trio, Wuta está a conduzir-me pela floresta tropical perto da sua aldeia no sul do Suriname — a uma hora de voo de Cessna da estrada mais próxima. Na base de uma grande árvore da qual pende uma cascata de lianas, Wuta aponta o seu GPS para o céu: não há sinal. Manipula um botão e alguns minutos depois consegue uma leitura. Indica as coordenadas a um colega cartógrafo Trio que está a seu lado, o qual as anota diligentemente. Wuta continua então a marcha, demonstrando como ele e outros nativos fizeram o levantamento topográfico, a pé ou de canoa, de cerca de 20 milhões de hectares de terra aqui na fronteira norte da Amazónia.

Para evitar serem cilindrados por construtores, rancheiros, madeireiros, mineiros, empresas petrolíferas e biopiratas, tribos através de toda a Bacia Amazónica têm vindo a adquirir ferramentas high tech que lhes permitam defender-se. A maior parte da ajuda neste esforço tem vindo da Equipa de Conservação da Amazónia, uma organização de preservação ambiental e cultural sediada na Virgínia, que forneceu equipamento, experiência cartográfica e assistência financeira. Agora, dúzias de homens como Wuta estão a calcorrear as florestas, fazendo levantamentos topográficos das suas terras com a ajuda de dispositivos GPS portáteis.

Evidentemente, só porque as tribos conseguiram cartografar as terras não significa que controlem todos os direitos legais destas. Mas é um passo nessa direcção. O Suriname usa agora mapas gerados pelos Trio e por outros grupos enquanto documentos governamentais oficiais. No Equador, a tribo Shuar, há muito envolvida num conflito com companhias petrolíferas americanas, recebeu recentemente a titularidade das suas terras comunitárias tal como cartografadas por GPS. A maciça campanha de levantamento topográfico e de delineação de fronteiras outrora imprecisas, levada a cabo por pés calçados de sandálias, deu também às tribos maior confiança para afirmarem os seus interesses — em alguns casos, os nativos expulsaram mineiros ilegais e estabeleceram aldeamentos e postos de vigia nas fronteiras das suas terras.

Em adição â cartografia GPS, as tribos estão a usar o Google Earth com fins de vigilância territorial. As imagens de satélite desta aplicação conseguem identificar ameaças — digamos, a expansão ilegal de uma plantação de soja, ou um rio manchado por efluentes de uma mina de outo. Algumas tribos do Brasil com acesso à Internet estão a marcar as coordenadas de actividades subreptíciais que vêm nas imagens, investigando então a pé ou passando a informação a autoridades governamentais. (…)

— Andy Isaacson, in "With the Help of GPS, Amazonian Tribes Reclaim the Rain Forest", publicado em Wired, via WolrdWebEyes

"Um Clima de Negócios"

[excerto de artigo]

A única forma de o aquecimento global poder ser "vendido" às pessoas do Ocidente é enquanto oportunidade de negócios. Do mesmo passo, as tecnologias verdes, através das quais todos ficaremos mais ricos, salvarão o planeta. Quem poderia alguma vez discordar desta situação "todos ganham"? Nenhum outro apelo carrega uma convicção equivalente. Donde que todo o debate sobre a alteração do nosso "modo de vida" deva ser subordinado ao potencial revolucionário de tecnologias futuristas, que, miraculosamente, nos salvarão dos efeitos dos anteriores milagres da tecnologia que nos trouxeram até este impasse.

Há muito que o mundo natural foi usurpado pela tecnoesfera, tal como sugere uma linguagem de conquista imperial: o clima dos negócios, ambiente económico, a atmosfera para o investimento, tsunamis financeiros, tempestades, calmarias e depressões económicas — todos eclipsam os elementos que sustentam a vida. É inevitável que devamos procurar a salvação nos negócios. E, de momento, os proponentes dos negócios universais têm alguns aliados inesperados: subitamente, os carpidores do apocalipse estão todos do lado dos místicos empresariais que conhecem a arte de sairmos da ruína fazendo compras.

A nossa melhor esperança seria desacoplarmo-nos das melancólicas regras do mercado, ao invés de dependermos crescentemente do mecanismo que criou o espectro de um planeta dessicado em alguns lugares, submerso noutros. Que isto não mais seja possível é um amargo comentário sobre os limites de uma liberdade que, sem aparentemente ninguém reparar, foi diminuída ao ser trocada por riqueza, em especial a liberdade de fazer as coisas de forma diferente, de alterar férreas leis económicas, de imaginar outros modos de viver, talvez mais austeros talvez mas talvez também mais alegres e menos destrutivos do único habitat que temos, pelo menos até os planetas terem sido colonizados tal como foram os continentes outrora remotos.

Os idealistas e utopistas foram amiúde criticados pelo seu aparente abandono do "mundo real". Mas o que poderia ser mais utópico do que a ideia de um mercado auto-regulador, uma entidade enorme que foi libertada da sociedade há 200 anos, baixo o sinistro e determinista estandarte da qual toda a humanidade deve agora encontrar a sua sorte? Estamos a viver com as consequências dessa ocorrência distante, a qual durante dois séculos celebrou o triunfo do mercado sobre a sociedade. (…)

Uma tal aproximação poderá ser impossível. Mas ela demonstra a tenacidade da fé — e a crença nas forças do mercado atingiu um estatuto aproximando-se de um culto, se não mesmo de uma verdadeira religião. Mostra também como a fé não é enfraquecida, sendo ao invés reforçada, por evidência desconfirmadora. Aquilo a que estamos a assistir, por entre a exaltação da congregação de bien-pensants em Copenhague, é ao endurecimento de ainda outro fundamentalismo, num mundo que já viu exemplos demais dele. Se os "negadores do aquecimento global" são desprezados, é por tornarem explícita a ideologia que está de facto a ser conservada por trás da retórica revolucionária em Copenhague. Está-se a lidar ferozmente com os cépticos do aquecimento global porque eles revelam aquilo que devia estar escondido — que o objectivo é um retomar do business-as-usual do capitalismo universal sob o manto benigno da energia verde. Os cépticos atingem o estatuto de herejes e desmancha-prazeres porque deixaram o gato sair do saco ecológico. (…)

— Jeremy Seabrook, in "A Business Climate", publicado em The New Internationalist

"O Regresso dos Fungos"

[excerto de artigo]

Nas florestas primordiais do Pacífico Noroeste cresce um cogumelo bolboso de ar pré-histórico chamado agárico [Fomitopsis officinalis]. Prefere colonizar abetos de Douglas centenários, crescendo para fora dos seus troncos como uma feia verruga num dedo. Quando conheci Paul Stamets, um micólogo que passou mais de três décadas a colher, a estudar e a tripar em cogumelos, ele descobrira apenas dois destes fungos invulgares, de cada vez acidentalmente — ou, como poderia dizer, por intervenção divina.

Stamets acredita que decifrar os segredos do agárico poderá ser tão importante para o futuro da saúde humana quanto a descoberta por Alexander Fleming, há mais de 80 anos, das propriedades antibióticas do bolor penicillium. De modo que, num ensolarado dia de Julho, Stamets está de partida para uma viagem ao longo das ilhas costeiras da Colúmbia Britânica meridional, na esperança de ensacar mais alguns dos fungos ameaçados, antes que a desflorestação ou as alterações climáticas mudem irreparavelmente os ecossistemas que são o seu lar. O agárico poderá estar pronto a salvar-nos — mas primeiro poderemos ter de o salvar a ele. (…)

Alguns meses antes, o Instituto para a Investigação da Tuberculose, da Universidade de Illinois-Chicago, enviou a Stamets a análise que fizera de uma dúzia de estirpres de agárico que ele cultivara no seu laboratório. O Instituto descobriu que o fungo era extraordinariamente activo contra a XDR-TB, um tipo raro de tuberculose que é resistente mesmo aos mais eficazes tratamentos farmacêuticos. O Projecto Escudo Biológico, o programa de biodefesa do Departamento da Saúde e de Serviços Humanos, descobriu que o agárico é altamente resistente a muitos vírus de gripe, incluindo, quando combinado com outros cogumelos, a gripe das aves. E uma semana antes da viagem, o Centro Nacional para a Investigação de Produtos Naturais, um laboratório financiado com verbas federais na Universidade do Mississipi, concluiu que o fungo mostrava resistência a vírus ortodoxos, incluindo a varíola — sem qualquer toxicidade aparente. (…) Actualmente, o agárico está a ser testado para ver se pode também combater o vírus suíno H1N1.

"Quando referimos os cogumelos às pessoas, elas pensam em cogumelos mágicos ou comestíveis. Reviram os olhos," lamenta Stamets. Que um simples e humilde fungo possa lutar contra doenças virulentas como a varíola e a tuberculose poderá parecer estranho, até percebermos que, embora o reino animal se tenha separado do reino dos fungos há cerca de 650 milhões de anos, os seres humanos e os fungos partilham ainda quase metade do seu ADN, e são susceptíveis a muitas das mesmas infecções. (Referir-se aos fungos como "os nossos antepassados" é um dos muitos biscoitos retóricos com que Stamets gosta de alimentar os seus públicos.) (…)

As experiências de Stamets geraram muitas descobertas surpreendentes sobre os cogumelos e o micélio, a rede semelhante a teias de aranha, amiúde oculta, que os gera. Ele demonstrou que o micélio do cogumelo-ostra pode restaurar mais eficazmente os solos poluídos por petróleo do que os tratamentos convencionais; numa experiência de oito semanas, o fungo decompôs 95 por cento dos hidrocarbonetos numa faixa de terra ensopada com óleo diesel. Usou sacos de aparas de madeira inoculados com micélio-ostra como filtros para proteger habitats fluviais de poluentes tais como pesticidas agrícolas contaminados com bactérias coliformes. Recentemente, provou que podia produzir-se etanol celulósico com açúcares extraídos de fungos em decomposição.

Insistindo ser apenas uma "voz do micélio", Stamets diz que não pode realmente assumir o crédito pelas suas descobertas sobre um reino extraordinariamente diverso e evolutivamente bem sucedido que a ciência moderna praticamente não explorou. Todavia, ao longo dos últimos quatro anos, requereu vinte e duas patentes e quatro foram-lhe outorgadas. "Estou a lutar contra as malvadas empresas farmacêuticas, e elas tentarão roubar-nos. Não tenho ilusões quanto a isto," diz. "É verdadeiramente uma situação de David contra Golias". (…)

— Andy Isaacson, in "Return of the Fungi", publicado em Mother Jones

"Escutando os Elefantes"


[excerto de artigo]
(…) Pouco tempo após o 11 de Setembro, a minha mulher, Marie, e eu fomos de novo ao norte do Quénia, para visitar os Turkana, os quais insistem que as secas só se manifestaram desde a primeira aparição do homem branco na África Oriental. Um curandeiro — um vidente — disse-nos, "Nos velhos tempos, havia sempre chuva e os Turkana viviam em paz". Hoje, as chuvas já não chegam quando costumavam. Os Turkana acreditam que o elefante se encontra junto a Deus e que o avistamento de um elefante assinala a iminência de chuva. (…) Hoje, muitos Turkana acreditam que a falta de elefantes no norte, devido à caça furtiva, é um augúrio de que a chuva não virá. As recentes secas — que se contam entre as piores em décadas — poderão ser parcialmente explicadas pelo quase completo desaparecimento do reverenciado elefante da Terra Turkana?

Os Samburu do Quénia acreditam que, tal como os videntes que conseguem prever a chuva, o elefante sabe quando esta está a chegar. A aparição súbita de elefantes após muitos meses de seca sugere que a chuva vem a caminho. Como sabem os elefantes que as chuvas se aproximam é um segredo que mesmo os videntes desconhecem. Esse conhecimento é da ordem de outra língua.

Foi dos pastoralistas Samburu, cuja relação com o elefante é talvez única em África, que conseguimos descortinar parte de uma aliança sagrada e notável. Após muitas viagens a África, em Setembro de 2007 Marie e eu levamos o nosso filho, Lysander, a tocar o solo de África pela primeira vez. Disse-nos Pacquo, um ancião Samburu do Quénia central, que durante o auge do massacre dos elefantes há trinta anos atrás, uma manada de trinta ou mais elefantes órfãos, que tinham perdido a família inteira, de algum modo conseguiram chegar ao território Samburu, tendo viajado durante dias para alcançar uma aldeia onde lhes foi concedido santuário. Hoje, a manada remanescente de elefantes da Cordilheira Matthews deve-se à compaixão dos Samburu e ao seu reconhecimento de que o elefante é uma extensão do seu próprio ser. Na verdade, os Samburu, bem como os Masai, têm um conceito — tenebo — que encara a coerência da dinâmica familiar dos elefantes como um modelo para as interrelações humanas. (…)

Hoje, a humanidade precisa de se virar para os elefantes para ouvir uma voz singular, uma mente que evoluiu connosco e nos influenciou em termos biológicos, culturais e míticos durante toda a nossa evolução. O trauma que os elefantes experimentaram ao longo das últimas décadas não é completamente mensurável pela humanidade. Na verdade, apenas algumas pessoas conseguiram romper o fosso humano/não-humano de modo a insistir que os elefantes — ao matarem aldeões na Índia e no Sri Lanka, ao violarem rinocerontes tal como fizeram na África do Sul, e ao exibirem a desordem do stress pós-traumático como documentado pelo psicólogo Gay Bradshaw — estão a exibir sintomas de uma doença muito maior: o colapso não apenas do habitat e da estrutura familiar, mas também da mente através de toda uma espécie. Este colapso é sintomático da desagregação da natureza tal como a temos conhecido. O laço insubstituível que temos tido com o elefante é uma aliança que precisamos de salvar não apenas em prol do futuro do elefante mas também do nosso.

— Cyril Christo, in "Gray Thunder: Listening to Elephants", publicado em Orion Magazine

"É Tempo de Adaptação"

[excerto de artigo]

(…) a guerra global contra o carbono não correu bem para a atmosfera. A verdade realmente inconveniente é: Estamos fritos. Assados. Cozidos. Mais do que admitem muitos "carbonistas" de dedo em riste. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration, o C02 que já está no ar ou a ser canaizado para ele alimentará um aquecimento "irreversível" durante os próximos 1000 anos. Qualquer plano improvisado em Copenhague para atrasar — esqueça-se inverter — o aumento de gases de estufa será fazer muito pouco e tarde demais. No adequado calão da indústria, um planeta mais quente já está "no forno". James Lovelock, o químico britânico que rebaptizou a Mãe Terra como "Gaia", diz a verdade baça: Podemos carregar num botão "Undo" do carbono? "Não temos o raio de uma chance".

Eis agora algumas boas notícias. Podemos ainda safar-nos. Porque, devido a um desses golpes de sorte que parecem seguir a espécie mais abençoada da Terra, as alterações  climáticas chegam exactamente no momento em que temos — ou temos à vista — uma panóplia de ferramentas para adaptar e estender a civilização humana a qualquer ambiente. Agora, o Homo sapiens espalha campos de golfe através de desertos, anda de carrossel no espaço exterior, actualiza os seus perfis Facebook a partir do Pólo Sul. E a mudança tecnológica está a acelerar. Em 2050 — a hora zero para muitos cenários de aquecimento — a primeira década do século 21 parecerá tão primitiva quanto o final do século 19 puxado a cavalos parece agora. (…)

Vale a pena termos presente que o planeta que habitamos esteve sempre fundamentalmente fora de controle, movido por sistemas fantasticamente complexos e caóticos que mal compreendemos. Com ou sem a nossa ajuda, a querida Mãe Terra é capaz de produzir circunstâncias altamente hostis para a vida humana. Pegue-se em qualquer cisne negro* que desejarmos — que tal o próximo asteróide, ou uma superepidemia asiática, ou aquele vulcão em Yellowstone? As alterações climáticas poderão acabar por ser apenas uma nota de rodapé.

Há muitas razões para que evitemos desviar as nossas prioridades para a adaptação. Para começar, "Estamos fritos" não é a ideia que ninguém faz de uma chamada às armas. Mas, de facto, uma apreciação honesta de onde nos encontramos deveria ser o ponto de partida para um debate mais importante (e muito mais interessante). A verdadeira questão não é como poderemos manter as coisas tal como estão, mas sim como sobreviveremos, e talvez mesmo prosperemos, num planeta mais quente. Sim, devíamos continuar a trabalhar na diminuição do carbono. Mas precisamos de ser realistas sobre o que isso pode conseguir e aquilo que é incapaz de fazer.

Arriscando-me a soar terrivelmente petulante, a mudança é boa. A sério. Sem os desafios infligidos pelo nosso ambiente volátil, começando com uma desagradável extinção de mais de 80 por cento das espécies, a Terra seria ainda o planeta das trilobites. Precisamos apenas de descobrir uma maneira de fazer aquilo que sempre fizemos: adaptar-nos e — se a tanto me atrevo — evoluirmos. E começarmos então a preparar-nos para a próxima era glaciar.

* "Cisne negro" é o termo cunhado pelo académico libanês Nassim Nicholas Taleb para designar um fenómeno imprevisível que tem um grande impacto.

— Spencer Reiss, in "Climate Change Is Inevitable — It’s Time to Adapt", publicado em Wired

"Missão Impossível"

[excerto de artigo]

(…) Durante quase um século — desde que o Serviço Florestal dos EU se comprometeu a extinguir todos os incêndios lavrando em terrenos públicos — o combate aos incêndios florestais tem sido encarado como o equivalente moral da guerra. Mas segundo alguns ecologistas florestais, antigos bombeiros e decisores políticos, este modo de encarar o fogo é um erro grave.

“É contraprodutivo,” diz Stephen Pyne, um historiador do fogo, da Universidade Estatal do Arizona. “Não é uma guerra. É uma má metáfora. Não estamos envolvidos num combate heróico. Estamos a destruir a coisa que supostamente estamos a proteger.”

Para Pyne e muitos outros estudiosos de incêndios florestais, o entendimento convencional que fazemos do combate ao fogo levou-nos a concluir equivocadamente que este é um conflito que podemos vencer. Na maior parte do Oeste, o fogo é uma parte vulgar da paisagem, uma característica tão essencial a muitos ecossistemas como os rios e as ervas. Os incêndios periódicos não são mais do que perturbações regulares; fomos nós quem os transformou em desastres. (…)

A ideia de que podemos combater — muito menos ganhar —uma guerra contra o fogo indicia uma profunda desconexão relativamente à natureza. Isso faz tanto sentido como combater um furacão, ou lutar contra um terramoto. Ao invès de combater essas forças indomitáveis, preparamo-nos para elas. Assim devia ser com os incêndios florestais. A melhor maneira de proteger do fogo moradias e vidas humanas não é combatê-lo, mas fazer a paz com ele. Como sucede com tantas questões ambientais, o desafio-chave é a adaptação aos sistemas naturais, um acto de humildade ecológica ao qual estamos desacostumados.

"Enquanto tivermos terras selvagens, vamos ter incêndios florestais," diz Tim Ingalsbee, um antigo bombeiro e agora director da associação Bombeiros Unidos para a Segurança, a Ética e a Ecologia. "O fogo é um processo essencial e inevitável. O fogo é uma força destrutiva quando encontra habitações, mas é uma força rejuvenescedora quando encontra florestas. Quanto mais cedo prepararmos as nossas casas e comunidades para viver com o fogo, tanto mais cedo poderemos restaurar os ecossistemas ao trabalharmos com ele". (…)

— Jason Mark, in "Mission Impossible", publicado em Earth Island Institute

"O Fim dos Peixes": excerto de artigo

Os nossos oceanos foram vítimas de um gigantesco esquema de Ponzi, perpetrado pelas empresas pesqueiras do mundo com uma calosidade digna de Bernie Madoff. Começando nos anos 50, à medida que as operações destas se industrializavam cada vez mais — com refrigeração a bordo, detectores acústicos de peixes e, mais tarde, GPS —, primeiro esgotaram os stocks de bacalhau, pescada, linguado e halibute do Hemisfério Norte. À medida que estes stocks desapareciam, as frotas deslocaram-se para sul, rumo às costas das nações em desenvolvimento, chegando finalmente às costas da Antártida, procurando  icefish e rockcods e, mais recentemente, pequenos krill semelhantes a camarões. À medida que diminuia a abundância das águas costeiras, as pescarias mudaram-se para o mar alto, para águas mais profundas. E, finalmente, à medida que os peixes maiores desapareciam, os barcos começaram a apanhar peixes mais pequenos e feios — peixes que nunca haviam sido considerados para consumo humano. Muitos tiveram os nomes mudados de modo a poderem ser colocados no mercado. O suspeito slimehead [cabeça de lodo] tornou-se o delicioso orange roughy, enquanto o preocupante peixe dentudo da Patagónia se tornou o saudável robalo chileno. Outros, como o caseiro hoki, foram cortados às fatias de modo a poderem ser dissimuladamente vendidos como douradinhos e filetes em restaurantes de fast food e na secção dos alimentos congelados.

Quem concretizou este esquema foi nada menos do que um complexo pesqueiro-industrial — uma aliança de frotas pesqueiras de grandes empresas, lóbistas, representantes parlamentares e economistas das empresas pesqueiras. Ao esconderem-se por trás da imagem romântica do pescador independente laborando em pequena escala, garantiram influência política e subsídios governamentais excedendo largamente o que seria de esperar, dada a sua minúscula contribuição para o PIB das economias avançadas — nos Estados Unidos, é menor mesmo do que a da indústria dos cabeleireiros. (…) Hoje, os governos providenciam anualmente quase 30 mil milhões de dólares de subsídios — cerca de um terço do valor da captura global —, que mantêm as pescarias a funcionar mesmo quando estas sobreexploraram a sua base de recursos. Como resultado, há entre duas e quatro vezes mais barcos do que a captura anual necessita, e no entanto os fundos para "aumentar a capacidade" continuam a chegar.

A brincadeira está contudo quase a acabar. Em 1950, a recém-constituída Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) das Nações Unidas estimou que, globalmente, estávamos a pescar por ano cerca de 20 milhões de toneladas métricas de peixe (bacalhau, arenque, atum, etc.) e de invertebrados (lagosta, polvo, amêijoas, etc.). Essa captura atingiu um pico de 90 milhões de toneladas no final dos anos 80 e tem vindo a declinar desde então. De um modo muito semelhante à infame operação de Madoff, que requeria um influxo de novos investimentos a fim de gerar "rendimentos" para os investidores anteriores, o complexo pesqueiro-industrial global tem precisado de um influxo constante de novos stocks a fim de continuar a funcionar. Em vez de reduzir as suas capturas de modo aos peixes poderem reproduzir-se e manter as suas populações, a indústria tem simplesmente pescado até um stock se esgotar, deslocando-se então para águas novas ou mais profundas, e para peixes mais pequenos e estranhos. E, do mesmo modo como um esquema de Ponzi entrará em colapso quando o reservatório de investidores potenciais secar, também a indústria pesqueira entrará em colapso à medida que os oceanos são secos de vida.

Infelizmente, não é apenas o futuro da indústria pesqueira que está em risco, mas também a saúde continuada do maior ecossistema do mundo. Enquanto a crise climática clama regularmente atenções de primeira página, as pessoas — mesmo aquelas que professam ter uma grande consciência ambiental — continuam a comer peixe como se fosse uma prática sustentável. Mas comer um rolo de atum num restaurante de sushi não devia ser considerado ambientalmente mais benigno  do que guiar um 4x4 ou arpoar um manatim. Nos últimos 50 anos, reduzimos as populações de grandes peixes comerciais, como o atum de barbatana azul, o bacalhau e outros favoritos, uns espantosos 90 por cento. Um estudo, publicado na prestigiada revista Science, previu que em 2048 todos os stocks de peixe comercial terão "colapsado", significando que gerarão 10 por cento ou menos do que as suas capturas máximas. Quer ou não esse particular ano, ou mesmo década, esteja correcto, uma coisa é clara: os peixes estão em grave perigo e, se eles estão, então nós também estamos. (…)

— Daniel Pauli, in "Aquacalypse Now", publicado em The New Republic

"Deixem de Culpar os Pobres": excerto de artigo

(…) Não é por coincidência que a maioria dos que estão obcecados com o crescimento populacional sejam homens brancos abastados em idade pós-reprodutiva: essa é praticamente a única questão ambiental pela qual não podem ser culpados. Por exemplo, James Lovelock, o brilhante cientista dos sistemas terrestres, afirmou no mês passado que "aqueles que não conseguem ver que o crescimento populacional e as alterações climáticas são dois lados da mesma moeda, ou são ignorantes ou estão a esconder-se da verdade. Estes dois enormes problemas ambientais são inseparáveis e discutir um sem discutir o outro é irracional". Mas é Lovelock quem está a ser ignorante e irracional.

Uma monografia publicada ontem na revista Environment and Urbanization mostra que os lugares onde a população tem crescido mais depressa são aqueles nos quais o dióxido de carbono tem crescido mais lentamente, e vice versa. Entre 1980 e 2005, por exemplo, a África sub-sahariana produziu 18.5% do crescimento populacional do mundo e apenas 2.4% do crescimento em CO2. A América do Norte contribuiu com apenas 4% das pessoas a mais, mas com 14% das emissões adicionais. Sessenta e três por cento do crescimento populacional do mundo aconteceu em lugares com emissões muito baixas. (…)

— George Monbiot, in "Stop blaming the poor. It's the wally yachters who are burning the planet", artigo publicado em The Guardian

"Sonhos Atómicos": excerto de artigo

(…) A possibilidade de um renascimento da indústria nuclear está a provocar tensões no movimento ambiental, à medida que organizações e indivíduos debatem os prós e contras do uso da energia nuclear para refrear as emissões de carbono. Uma série de destacados ambientalistas — entre os quais Stewart Brand, fundador do Whole Earth Catalogue, Jared Diamond, vencedor do Prémio Pulitzer, e James Lovelock, promotor da teoria de Gaia — pronunciaram-se a favor da energia nuclear enquanto resposta às alterações climáticas. Entre os grupos ambientais mainstream dos EUA, a unanimidade é quase absoluta: A energia nuclear continua a ser uma ideia tão má quanto o era no apogeu dos protestos [contra a construção da central nuclear] de Diablo Canyon. Mas a nível das bases a opinião divide-se. Como escreveu um blogger verde: "Nós ambientalistas devemos repensar a oposição que fazemos à energia nuclear. Aqueles que se opuseram à construção de novas centrais nucleares nos Estados Unidos ao longo dos últimos 20 anos acabaram de facto por forçar o uso de uma alternativa suja — a combustão de carvão — que liberta milhões de toneladas de gases de estufa para a atmosfera". (…)

— Jason Mark, in "Atomic Dreams", artigo publicado em Earth Island Journal (via Utne Reader)

"O Grande Salto Verde em Frente": excerto de artigo

Por trás das notórias nuvens de sujidade e de gases de estufa que o mastodonte industrial da China cospe para a atmosfera todos os dias, está a ocorrer uma revolução em que poucos reparam. A China está a virar verde. E, à medida que as autoridades locais incentivam os fabricantes de todos os tipos de equipamento de energias alternativas a fazer mais com menos, o "preço chinês" e a "velocidade chinesa" aprestam-se a abocanhar a parte de leão da próxima indústria global multimilionária — a tecnologia energética.

As fábricas chinesas produzem já um terço das células solares do mundo — seis vezes mais do que a América. No próximo ano, a China tornar-se-á o maior mercado mundial para turbinas eólicas — ultrapassando a América. Este Outono, uma empresa chinesa fabricará o primeiro carro eléctrico do mundo a ser produzido em massa neste século. E onde estão as empresas americanas fornecedoras de energia a comprar a última geração de centrais eléctricas funcionando com "carvão limpo"? Na China. (…)

— Peter Ford, in "China's Green Leap Forward", artigo publicado em The Christian Science Monitor

"A Revolução de Uma Palha": excerto de livro


(…) O caminho habitual para desenvolver um método é perguntar: "E se experimentássemos isto?" ou "E se experimentássemos aquilo?", introduzindo uma série de técnicas umas atrás das outras. Isto é a agricultura moderna e o seu único resultado é tornar o agricultor mais ocupado.

Segui o caminho oposto. Ambicionava um modo de cultivo que desse prazer, fosse natural, e que acabasse por tornar o trabalho mais leve e não mais duro. "E se não fizéssemos isto? E se não fizéssemos aquilo?" — tal era a minha maneira de pensar. Finalmente, cheguei à conclusão que não era necessário lavrar, espalhar adubo, fazer composto ou usar insecticida. Quando se chega a este ponto, poucas práticas agrícolas são verdadeiramente necessárias. (…)

— Masanobu Fukuoka, in A Revolução de Uma Palha, edição Via Óptima