[excerto de post de David Byrne]
(…) Na Holanda, o lugar mais tolerante do planeta, está a tornar-se gradualmente aceite que a tolerância tem de valer para ambos os lados; por outras palavras, espera-se que os imigrantes muçulmanos se tornem "holandeses" em alguns aspectos — mesmo os seus confrades muçulmanos em Amesterdão têm esta expectativa. O que significa que os imigrantes devem aceitar a existência de uma longa tradição de tolerância na Holanda, e especialmente em Amesterdão, e que se vamos mudar-nos para a Holanda deveríamos esperar aceitar esta maneira de pensar tipicamente holandesa. A comunidade muçulmana, por exemplo, tem de se habituar à existência de um bairro com sex shops e mulheres pouco vestidas nas janelas, a que casais do mesmo sexo se possam beijar nas ruas, e à vista de coffee shops que vendem haxixe. O acordo implícito é que viver na Holanda significa que se aceitam coisas destas, por mais que as consideremos de mau gosto. Os holandeses, evidentemente, permitem que a população muçulmana local mantenha também os seus costumes — desde que se encaixem e não façam muitas exigências.
Isto é uma mudança de uma atitude provocatória que, há alguns anos, resultou na morte de Theo van Gogh. Ele fizera um filme que deliberadamente atiçava e provocava a população muçulmana holandesa, em colaboração com Ayaan Hirsi Ali, que recebeu ameaças de morte e agora está sob protecção do governo — e se encontra envolvido com o American Enterprise Institute, um think tank americano de direita. O seu filme de 10 minutos apresenta uma mulher nua vestida com um chador transparente, com versos corânicos justificando a submissão da mulher escritos no seu corpo. Tal como os cartoons dinamarqueses [representando Maomé como um bombista], isto foi encarado pelos muçulmanos como uma provocação deliberada... e também muito grosseira. Trata-se, poderíamos considerar, de fascismo liberal.
Não que van Gogh merecesse morrer. Os holandeses mobilizaram-se e manifestaram-se após a sua morte, e encararam o assassínio como uma tentativa de abafar a liberdade de expressão — de implicar que a expressão pública e a crítica têm limites. Alguns advogados da liberdade de expressão insistem que deve ser-nos permitido dizer e exprimir o que quer que seja, excepto o encorajar da violência. Outros consideraram que o filme era ofensivamente provocatório — de certo modo, encararam o incidente como se os realizadores do filme estivessem a pedi-las. Os advogados da liberdade de expressão consideram que esta é absoluta, e que as pessoas deviam poder dizer seja o que for, dado tratar-se "apenas de palavras".
Ian Buruma, um escritor de ascendência holandesa, escreveu sobre este incidente e as questões que ele suscita. Argumenta que a liberdade de expressão não devia ser considerada absoluta — e que pensar em termos de absolutos conduz sempre ao desastre. Diz que estamos sempre a limitar a nossa liberdade de expressão — lembro-me de o fazermos à volta da família e dos parentes durante as férias do Natal —, e fazemo-lo em prol do convívio, para permitirmos que a sociedade funcione, pela nossa felicidade e pela felicidade dos outros. Não é necessariamente uma mentira não despejarmos da boca para fora a feia verdade sempre que pensamos nela. Durante as férias do Natal, não chateamos o Tio Harry por pentear sobre a careca o cabelo que lhe resta, porque sabemos que fazê-lo se limitaria a tornar a reunião ainda mais tensa do que ela já é — e quem ganharia com uma tal honestidade insensível? Abafar só um bocadinho a liberdade de expressão, com alguma autocensura subtil, torna a vida mais agradável para todos. (…)
— David Byrne, in "The Limits of Multiculturalism", publicado em David Byrne's Journal,
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11 de janeiro de 2010
"Diários de Bicicleta": excerto de livro
Uso uma bicicleta como meio principal de transporte erm Nova Iorque desde o início dos anos 80. Quanfo resolvi experimentar pela primeira vez, o resultado foi agradável mesmo aqui em Nova Iorque. Senti-me energizado e libertado. (…) À época, a minha vida restringia-se à baixa de Manhattan — a East Village e o Soho —, e em breve tornou-se aparente que pedalar era uma maneira fácil de fazer compras de dia e de, à noite, alcançar eficientemente algumas discotecas, inaugurações de exposições ou bares, sem precisar de procurar um táxi ou a estação de metro mais próxima. É certo que em geral não pensamos na prática do nightclubbing e em andar de bicicleta como sendo almas gémeas, mas há tanto que ver e ouvir em Nova Iorque, e descobri que pedalar de um sítio para outro era espantosamente rápido e eficiente. De modo que continuei a fazê-lo, mau grado a imagem de caretice e do perigo, já que à época não havia muita gente que andasse de bicicleta na cidade. Nessa altura os motoristas não esperavam partilhar as ruas com ciclistas, de modo que se atravessavam à nossa frente ou apertavam-nos contra carros estacionados ainda mais do que o fazem agora. Ao ficar um pouco mais idoso. posso ter sentido também que andar de bicicleta era um modo conveniente de fazer algum exercício, mas inicialmente não pensava nisso. Era apenas muito agradável passear pelas ruas sujas e esburacadas. Era exaltante. (…)
— David Byrne, in "Bicycle Diaries", excerto da edição Viking publicado em World Hum
— David Byrne, in "Bicycle Diaries", excerto da edição Viking publicado em World Hum
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