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12 de janeiro de 2010

"Louco por Carros"

[excerto de entrevista com P.J. O'Rourke]

(…) P: Incomoda-o ouvir pessoas dizerem que estamos "viciados" em automóveis?

PJO: Não me incomoda, quero estrangulá-las. Vai um pouco além do incómodo. Quero enfiá-las nos seus Prius e travar as portas. Simplesmente não sabem do que estão a falar. Os americanos conseguiram criar a vida que temos na América por terem conseguido sair das grandes cidades. Consegue imaginar Nova Iorque em Agosto antes de o automóvel ter sido inventado? Seja qual for a opinião que façamos do smog, consegue imaginar o cheiro que tinha Nova Iorque com trânsito tão intenso como hoje, mas era tudo cavalos? Consegue imaginar o fedor, as moscas, a doença de um tal lugar?

E não era apenas o ambiente urbano que combatíamos com os carros. Era a corrupção das máquinas políticas urbanas, as miseráveis escolas públicas, as dementes burocracias municipais. A razão por que vivemos nos subúrbios é termos conseguido fugir dessas coisas. E a razão por que conseguimos fugir dessas coisas — não foi o comboio. Foi o carro que nos permitiu afastar o suficiente dessas coisas para construirmos uma vida decente.

P: Acha que existe o perigo de a paixão americana pelo automóvel ser substituída por um amor pelos comboios?

PJO: Sim, o comboio tem algo de romântico. Mas tente fazer os carris chegarem a sua casa. Na altura de descarregar as compras do supermercado, a paixão pelo comboio desaparece. Tente enfiar o comboio pelo túnel drive-in de um McDonald's. É uma grande alhada.

P: Talvez só os políticos gostem dos comboios.

PJO: Por que é que os políticos gostam de comboios? Porque podem saber onde conduzem os carris. Sabem para onde vai toda a gente. É tudo uma questão de controlo. A própria política não passa de uma tentativa de alcançar poder e prestígio sem se ter mérito. Essa é a definição de política. Os políticos odeiam os carros. Sempre odiaram os carros, porque os carros libertam as pessoas. Estas não apenas ficam livres no sentido de poderem ir para onde quiserem, o que à partida incomoda os políticos, mas podem sair da circunscrição política que o político representa. (…)

— Michael C. Moynihan, in "Driven Crazy", publicado em Reason Magazine

P. J. O'Rouke é jornalista libertário, satirista e autor de 12 livros, o último dos quais, Driving Like Crazy: 30 Years of Vehicular Hell-Bending, "“celebra a América tal como ela deve ser — com um poço de petróleo em cada quintal, um Cadillac Escalade em cada garagem, e o presidente do Banco da Reserva Federal a cortar-nos a relva".

11 de janeiro de 2010

"O Facebook Irá Matar o Automóvel?"

[excerto de post]

Lester Brown do Earth Policy Institute apresentou hoje um novo relatório mostrando que o parque automóvel americano encolheu quatro milhões de carros em 2009 — a primeira vez que isto acontece desde a 2ª Guerra Mundial. No total, foram para a sucata 14 milhões de veículos e apenas foram comprados 10 milhões (por comparação, antes de 2007 vendiam-se em média  cerca de 17 milhões de automóveis por ano). É muito possível que isto seja só a recessão a falar, mas Brown pensa que marca o início de um "afastamento cultural em relação aos carros":

Entre as tendências que estão a manter as vendas bem abaixo do número anual de 15-17 milhões, contam-se a saturação do mercado, a urbanização continuada, a incerteza económica, a insegurança quanto ao petróleo, o aumento do preço da gasolina, a frustração com a congestão do tráfego, a preocupação crescente com as alterações climáticas, e o declínio do interesse dos jovens pelos carros. (…)

A tendência social mais fundamental afectando o futuro do automóvel talvez seja o declínio do interesse dos jovens pelos carros. Para aqueles que cresceram há cinquenta anos num país que ainda era fortemente rural, tirar a carta de condução e ter um carro ou uma carrinha era um rito de passagem. Enfiar outros adolescentes no carro e ir dar uma volta nele era um passatempo popular.

Em contraste, muitos dos jovens de hoje, vivendo numa sociedade mais urbana, aprendem a viver sem carros. Socializam na Internet e em
smart phones, não em carros. Muitos não se dão sequer ao trabalho de tirar a carta de condução. Isto ajuda a explicar por que, apesar de a população adolescente americana ser a maior de sempre, o número de adolescentes com carta de condução, que atingiu o pico em 1978 com 12 milhões, se encontra agora abaixo dos 10 milhões.

Será verdade? Os miúdos passam tanto tempo no Facebook que já não têm tempo para andar a passear de carro? Suponho que é plausível. Teremos de ver se esta tendência continua quando (se?) a economia americana começar a crescer de novo. Não são exactamente boas notícias para os fabricantes de automóveis — e fazem-nos pensar por quanto mais tempo os governos ocidentais conseguirão amparar uma indústria que poderá ter de começar a encolher. Embora a outra coisa a notar aqui é que mesmo que os americanos estejam a comprar menos carros, os países em desenvolvimento estão a compensar esse facto. No ano passado a China tornou-se oficialmente o maior mercado automóvel do mundo e, segundo alguns cálculos, o número de veículos em todo o mundo duplicará — para dois mil milhões — em 2020.

— Bradford Plumer, in "Will Facebook Kill Off The Automobile?", publicado em The New Republic